Helio Rodrigues Artista Plástico
Cursos AdultosCursos CriançasEventosFalando de Arte-EducaçãoProjetos SociaisContato

Falando de Arte-Educação

FALANDO COM ADULTOS SOBRE ARTE E EDUCAÇÃO

Já fomos crianças e hoje se não nos lembramos mais, podemos observar as crianças que estão por perto de nós.
Quase todas quando ainda pequenas, encontram meios de acomodarem ou ao menos tornar mais digestivo os momentos incômodos que vivem. Uma briga, um grito injusto, uma omissão, uma incompreensão, podem ser digeridos ou expelidos numa estória imaginada e representada entre objetos comuns ou brinquedos, na terra ou na areia da praia, num desenho ou numa pintura feita na escola.
Há, sem dúvida, situações que transcendem o simples indigesto e que mesmo deixando marcas, elas até se suavizam com a possibilidade do criativo.
Foi a nossa imaginação infantil ou a das crianças que observamos que permitiu elaborar os inevitáveis obstáculos próprios da vida. Foi o medo da bruxa que não gostava da branca de neve ou o medo de ser bruxa, foi o desejo de pintar tudo de azul ou respingar de vermelho o papel branco, de riscar com raiva o lápis cera sobre um pedaço de tábua, que nos alimentou e nos ajudou nesse percurso.
Não sei se vocês ainda se lembram, mas foi por volta dos oito anos, quando os códigos de ensino passaram a ocupar quase inteiramente nossas vidas, que a nossa imaginação foi perdendo espaço, até sucumbir entre números, provas, certos, errados e outros rigores da precisão. A vida a partir daí, no entanto, não deixou de produzir situações tão indigestas quanto imprecisas. Mas, onde ficaram os recursos trazidos pela criatividade dos primeiros anos e o que fazer quando ao invés da imprecisão criativa se tem apenas a missão de acertar?
Não reclamem de ansiedade ou de desinteresse em seus filhos!
Afinal eles estão seguindo o comando, tentando ser competitivos ou talvez tenham desistido da competição por se sentirem fora do páreo.
Não reclamem de hiperatividade sem antes observar se ainda existe espaço na vida de seus filhos para brincar e imaginar por conta própria.
Não reclamem de incompetência para o aprendizado, porque a educação sem a arte faz a criança romper com a competência que ela experimentava, quando a criatividade naturalmente permeava sua vida. Educação sem arte, traz impessoalidade e torna estéril o conhecimento e o raciocínio.
De que adianta crescer e passar a observar o mundo através de um olhar limitado?



          
Ansiedade infantil.
O que a arte pode fazer por elas?


Numa época em que só se valoriza a objetividade, como recurso educacional para as supostas “conquistas do futuro”, a subjetividade oferecida pela arte, é um importante contraponto para a redução da ansiedade e do imediatismo que essa cultura do “foco” vem provocando em nossas crianças.
Foto de Helio Rodrigues dando aulas para crianças.
          Apesar da inquestionável contribuição da arte na revisão desse preocupante panorama, ela vem sendo desqualificada como recurso de expressão e desenvolvimento da pessoa, para desempenhar um papel quando muito, apenas recreativo nas escolas. Atualmente, somente conteúdos objetivos compõem as chamadas “grades educacionais”, infelizmente montadas para atender o ansioso processo das “metas a conquistar” vividas pelos pais e não contestadas pelo atual sistema educacional.

          Venho assistindo ao crescimento da frustração num número cada vez maior de crianças e adolescentes, que acredito, fomentada pelo excesso de expectativas num futuro de “conquistas”, depositadas sem reflexão por pais e educadores.

          Nossas crianças encontram-se sobrecarregadas de desejos que não são delas e por isso, visivelmente ansiosas e estressadas. Distantes das atividades criativas estão por isso também, distantes da subjetividade, único contra ponto possível frente a esse “culto” que vem sendo promovido ao objeto.

          Como a arte provoca uma estreita relação com o desenvolvimento da opinião, é previsível que o “fazer escolhas” seja um incômodo dentro de uma sociedade sob a ditadura do consumo. Pode-se entender assim, porque a arte vem ocupando o espaço da “recreação” na vida de nossas crianças.
Foto de Helio Rodrigues dando aulas para crianças.
          Faz-se urgente uma revisão do atual olhar da educação sobre a arte, lembrando-se que através dela pode-se proporcionar a experiência legítima de contato de cada indivíduo com suas potencialidades. Ações artísticas produzem o desenvolvimento de uma linguagem própria, por isso mesmo rica. Representa a grande ligação entre o homem e as questões não palpáveis de sua vida. Ela é a possibilidade de descoberta de novas formas de ver e pensar as questões que gravitam entorno de toda pessoa. Seu poder de acessar e lidar com a legitimidade a transforma numa especial facilitadora da construção da identidade dos indivíduos, com a medida o peso e o tempo de cada um.

          Precisamos lembrar que: Objetivar é tornar objeto um interesse, um desejo e até sentimentos e conquistas, que em pouco tempo empobrecem, porque não se sujeitam, não se legitimam. Subjetivar é filtrar experiências através da pessoa, se manter essencialmente nela ou se transformar entre sujeitos. O subjetivo não propõe a realização do objeto como meta e sim a multiplicação de interpretações e possibilidades que uma ação pode provocar Assim é a arte, um recurso capaz de fornecer continuamente leituras e interpretações diversa e jamais ser reduzida a um objeto final. Para o subjetivo o objeto pode ser um cárcere de idéias, a cristalização do pensar.

          A diferença entre a arte pela arte e a arte associada a outros contextos, como é o caso das conhecidas parcerias: arte-terapia, arte-educação, arte-aplicada, etc, é que essas associações precisam ser cuidadosas, porque tendem a agregar objetividade ao que é e precisa ser em essência, pura subjetividade. É claro que para os puristas da arte essas parcerias são meros arranjos que tentam dar funções e significados para ela. Há que se pensar na forte contribuição dessa opinião, no sentido fundamental que tem, de manter a arte constantemente livre e desapropriada, para continuar existindo. Só dessa maneira pode se manter como o importante contraponto que é, frente a esse universo de objetividades ao qual estamos inevitavelmente incluídos.